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8.7.10

Proposta 2 - Concluindo,

Muitas vezes, ou talvez todos os dias, a Tipografia é algo que nos passa ao lado. Mas a verdade é que ela está em todos os lugares: nos jornais, revistas, livros, panfletos, cartazes, layouts… E, também muito mais do que possamos pensar, ela é determinante para chamar a nossa atenção, uma atenção que é selectiva, sendo para isso este aspecto gráfico uma componente do design muito estudada.
Desde a revolução tecnológica trazida por Gutenberg até aos dias de hoje, onde domina a informática e o mundo digital, a evolução das letras e das suas tipologias foi imensa, e hoje encontramos milhares e milhares de tipos de letras diferentes, com significados visuais diferentes.
Com este trabalho, baseado em Fernando Pessoa e nos seus três heterónimos mais conhecidos, pude explorar esta realidade aliciante, tentando reproduzir os versos de cada um deles em tipologias tipográficas, que pudessem expressar da forma mais natural possível o seu significado.
Assim, consegui por meio da tipografia: a brevidade tortuosa de Ricardo Reis, a simplicidade natural de Alberto Caeiro e a atitude crítica e frenética de Álvaro de Campos.

Proposta 2 - Alberto Caeiro

Alberto Caeiro é o heterónimo do não-pensamento, nisso assemelhando-se muito ao ortónimo. Nega a metafísica e restringe a sua vivência ao uso exaustivo dos seus 5 sentidos, enquanto deambula pela natureza.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de coisa a coisa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

Nos versos que me foram dados, a essência está numa profunda crítica ao ser humano, exactamente por pensar demais. Alberto Caeiro mostra o seu desprezo pela excessiva racionalização da sociedade, maníaca pela organização e pela estruturação; daí que fale em “ordem”, em “linhas” e “paralelos de latitude e longitude”.
Ora, nesta composição, quis representar esse mesmo sentido crítico do heterónimo, fazendo uma oposição entre aquilo que ele defende e aquilo que ele critica.
Sendo então um adepto da disposição natural das coisas, sem racionalizar ou intelectualizar, construí o seu nome a partir da desorganização das letras, ainda que com uma forma lógica, e bem legível. O tipo de letra aqui utilizado foi o Verdana, em negrito. Ao seu nome, mas desta vez em Arial, associei o ponto de exclamação do último verso, de forma a acentuar o seu espírito crítico tão presente nestas palavras.
Por outro lado, a organização e linearidade tão criticadas por Caeiro estão presentes na disposição do texto da minha autoria acerca do poeta, intercalado pela horizontalidade dos versos. No texto, optei por um tipo de letra mais conservador e “antiquado” – Perpetua -, associando-o a um heterónimo muito pouco dado aos modernismos da sociedade; para os versos, de forma a destacá-los, reservei o Arial Rounded MT Bold.
A não utilização da cor num heterónimo tão ligado à natureza e à sua diversidade pode ser colocada. No entanto, já que decidi apostar num trabalho tipográfico mais ligado à forma e à disposição espacial, achei que a utilização de cores constituiria algum tipo de “ruído” na comunicação visual.

Proposta 2 - Álvaro de Campos


Álvaro de Campos é talvez o mais complexo dos 3 heterónimos aqui abordados. Ao longo da sua existência, passa por 3 fases: a sensacionista, a futurista e a decadentista. Todas elas muito diferentes, o que vai reflectir uma oscilação de sensações, sentimentos e pensamentos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Uma vez que os versos citados pertenciam à Ode Triunfal, um dos seus poemas mais conhecidos e correspondente à fase Futurista, optei por inspirar o meu trabalho tipográfico nesta mesma fase. Na totalidade deste poema, o sujeito poético, simultaneamente:
- enaltece a grandiosidade das máquinas, da velocidade, da acção, do movimento, das novas invenções;
- critica a sociedade, os seus crimes, cinismo e profunda corrupção.

No que toca ao primeiro aspecto, e em termos visuais, decidi que o aspecto central deste trabalho seriam as “engrenagens” referidas pelo heterónimo. Engrenagens essas que estariam associadas àquele que o poeta dá a entender ser um som ensurdecedor, representado pela onomatopeia do “r-r-r-r-r-r”. Assim, criei três engrenagens cuja forma é definida pela letra “r”, em maiúscula. A letra “r” volta a ter destaque não só no primeiro verso (com um tipo de letra diferente, em negrito e num tamanho maior), como no texto da minha autoria acerca do heterónimo; este texto, repetido várias vezes, constitui o fundo da composição, destacando o “r” com a cor branca.
O dinamismo impresso pela figura das engrenagens (acentuado pelo facto destas abarcarem os versos do poeta) acaba por ir de encontro ao segundo aspecto, mas esta ideia de crítica corrosiva é acentuada pelos tipos de letra que se destacam nesses mesmos versos, incluídos no interior das engrenagens: Wide Latin e Broadway. E não esquecer que associei estes tipos de letra ao ruído do “r-r-r-r-r” e à palavra “Fúria”.
Optei por usar um fundo vermeho, de forma a criar mais impacto e a realçar a emoção das palavras e do próprio estado de espírito de Álvaro de Campos.
Os recortes geométricos a branco acentuam a ideia de maquinismo, indústria, fazendo lembrar a estrutura das máquinas.
As cores dominantes são então o preto, o branco e ainda o vermelho que, no seu conjunto, transmitem alguma frieza, crueldade, estruturação das máquinas e do novo mundo industrial.

Proposta 2 - Ricardo Reis


Ricardo Reis é, de todos os heterónimos, aquele que vive mais atormentado pela brevidade da vida, querendo, acima de tudo, aproveitar os prazeres momentâneos. Isto para que, ao morrer, possa sentir que consegue levar da vida algo de proveitoso, próximo da felicidade.
Só as memórias prevalecem, ultrapassando a efemeridade. Daí que o poeta enalteça a imagem de Lídia (a personagem a quem mais se dirige nos seus poemas) como uma bela recordação:

Ser-me-ás suave à memória, lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

De forma a acentuar a noção de brevidade da vida, como algo sempre prestes a terminar, decidi dividir esta composição em faixas horizontais, que pudessem representar uma certa episodicidade, sob a ameaça do fim iminente. O nome do heterónimo tem destaque logo na primeira faixa, despida de qualquer outro elemento, de maneira a identificá-lo desde logo.
O destaque foi para as palavras “beira-rio” e “flores” por serem aquelas que, de uma forma mais directa, apelam para a descrição do cenário visionado pelo eu poético. Daí que as tenha tentado representar graficamente, por meio da Tipografia: o rio, através de chavetas que, pela sua disposição, pretendem criar o movimento da ondulação das águas; as flores, através de uma composição organizada de letras ‘O’ minúsculas.
Quanto ao texto descritivo da história, personalidade e estilo poético de Ricardo Reis (de 24 linhas e a ser incluído obrigatoriamente na composição), optei por transformá-lo numa espécie de “pano de fundo” dos versos, diminuído o tamanho da fonte e optando pelo tom de cinzento. Assim, quis associar este efeito visual ao certo esbatimento que tanto caracteriza muitas das nossas memórias e lembranças.
A opção pelo preto e branco dominante na composição tipográfica não foi ao acaso: guiado pelo princípio da Ataraxia, Ricardo Reis procurava a moderação dos prazeres, pelo que a aplicação dos dois tons mais básicos existem teve o intuito de representar essa mesma suavidade de viver, sem excessos ou grandes emoções.
Os tipos de letras utilizados neste trabalho foram: Broadway BT, Dejavu Sans Light, Bell Gothic Stol Light, Corbel e Century Gothic.

Proposta 2 - Tipografia, a palavra-imagem

No âmbito desta proposta, e com o objectivo de melhor compreendermos a função visual comunicativa da letra e das suas diferentes variações, tive de desenvolver 3 composições, baseadas em tipografia. Nestas 3 amostras, teria de associar a versos de Fernando Pessoa o nome do autor/heterónimo, e ainda um texto acerca do mesmo, da minha autoria, mediante pesquisa anterior. Foi o que fiz.

Os versos que nos foram dados são um excerto de cada heterónimo do maior poeta português do século XX e uma das mentes mais brilhantes que o universo da literatura teve a honra de perpetuar.

As 10 grandes Famílias Tipográficas

Ao longo da evolução da Tipografia, deu-se o nascimento de uma enorme quantidade de delineações e variações formais. Elas não são nada mais, nada menos do que o reflexo das personalidades dos seus autores e das culturas do seu tempo, cristalizados em sucessivos caracteres tipográficos. Passamos assim, a apresentar as 10 grandes Famílias Tipográficas e os significados a que elas se associam, segundo uma classificação de Claude Laurent François:

Góticas e Civis: remetem para os “velhos tempos”, passado, Idade Média, ligando-se também à religião e à gastronomia; Gutenberg utilizou-as na impressão das bíblias; não há uma grande preocupação em justificar as margens;

Humanistas: de tradição robusta, remetem para a elegância e para o humanismo europeu; associadas ao Renascimento (séc. XV);

Garaldos: significam elegância e tradição;

Reais/ De transição: ligadas ao preciosismo, um novo tipo de carácter, mas débil;

Romanas Clássicas: remetem para a dignidade, austeridade, frieza; grande importância do espaço;

Mecânicas ou Egípcias: inspiradas no modernismo do século XIX;

Incisas: reflectem a simplicidade e o classicismo modernizado;

Lineares Geométricas: são o modernismo, a indústria e o funcionalismo na tipografia;

Lineares Moduladas: advêm do modernismo elegante;

Escriptas: reflectem uma escrita pessoal, intercâmbios epistolares tradicionais e revelam uma espontaneidade do traço;

Sobre a Tipografia

É inegável que a capacidade de comunicar é inata ao Homem, sendo indispensável a uma sobrevivência mentalmente saudável e feliz.
Comunicamos quer verbalmente, quer não verbalmente, de diversas formas e em diversas circunstâncias. Com a invenção dos Fenícios da Escrita, surgiu primeiro a noção de Caligrafia, como a arte de escrever (por meio de traços) com beleza e graça.
A Tipografia surgiu a partir da fragmentação da palavra manuscrita através de exigências mecânicas, e converteu-a numa reagrupamento combinatório de letras e signos soltos, independentes uns dos outros e indefinidamente “exchangeable”.
Usar a Tipografia é usar uma plataforma visual. E qualquer mensagem em comunicação visual necessita de um suporte visual, que Bruno Munari define como 'o conjunto de elementos que tornam visível a mensagem, todas aquelas partes que devem ser consideradas e aprofundadas para se poderem utilizar com máxima coerência em relação à informação'. É uma forma de comunicação, um código visual comum a dois ou mais interlocutores.
A Tipografia foi determinante no crescimento das artes gráficas e da publicidade, crescendo então como uma importante base da Comunicação Visual. Ainda mais, na actualidade, os artistas gráficos estão muito mais bem preparados que os de antigamente, tendo à sua disposição um grande número de meios de informação, documentação e bibliografia. As necessidades editoriais e tipográficas também são muito intrincadas, exigindo não só minuciosidade e perfeição, mas principalmente uma grande dose de criatividade.
As boas letras fluem naturalmente, daí que o artista gráfico não se deva prender a meras imitações. Há que compreender os exemplos clássicos, os princípios, a estrutura e a lógica da letra, mas a originalidade na transmissão de uma ideia através do meio visual da tipografia é que determina a mensagem, a sua recepção e a concepção de um bom trabalho.

Tipografia - A Inspiração













Valor Estético associado ao Valor Semântico

















Valor Estético independente do Valor Semântico

8 regras para o design de Tipografia

01. Aprender os conceitos básicos;
02. Atentar no espaçamento entre letras;
03. Escolher o tipo de fonte adequado;
04. Adequar o alinhamento à estrutura do projecto;
05. Escolher uma boa fonte secundária;
06. Adequar o tamanho das letras;
07. Usar a Tipografia como uma arte;
08. Encontrar uma boa fonte de inspiração;


in 8 Rules for Creating Effective Typography

do grego typos + graphein

A origem etimológica da palavra 'Tipografia': forma + escrita.

Enfim, define-se como a arte e o processo de criação na composição de um texto, física ou digitalmente.